sábado, 1 de novembro de 2014

Crônicas Cronificadas - A azeitona

Imagem do site: www.galeria.colorir.com (pintado por RaquelEsagui)

A Azeitona


"Porto Alegre. Ano de 1976. O frio de lascar, 3 graus. O restaurante lotado, aliás, existe uma estatística não oficial de que conforme o frio aumenta passamos a ingerir mais alimento até o limite de 35% a mais do que em uma temperatura normal. Conforme esquenta deveria ser o contrário, mas conforme a mesma estatística, não é. Também se tende a comer mais. Em resumo, se você quiser emagrecer faça dieta e more em região de clima temperado.
Bom, voltemos à realidade do restaurante, que era árabe. Gosto de comida árabe, gosto de árabes. Talvez por ser árabe, foi só uma piada, pedi uma salada árabe e completa, que não me lembro o nome, talvez por estar traumatizado pela situação que a mesma me conduziu.
A salada chegou, era a primeira vez que eu havia pedido aquele tipo de salada. Em uma imensa travessa de vidro. A salada parecia não estar pronta. O pepino, o tomate, a cebola e a alface estavam inteiros dentro dela. Azeitonas e aspargos em um prato. Ao lado, uma tigela com molho de gergelim acompanhava tudo, e eu que pensei que seria uma salada igual a que eu havia comido no Terraço Itália  há um mês. O molho era composto por mostarda, azeite de oliva, ervas finas, cebola etc... Isto no Terraço Itália, aqui eu não saberia dizer a composição, mas isto não me incomodava, o que me incomodava era a salada não estar pronta.
Pensei, não vou cometer a ignorância de parecer ignorante, portanto decidi, vou comer as azeitonas e os aspargos e depois eu vejo o que vou fazer com o pepino, tomate etc...
Coloquei algumas azeitonas e aspargos no prato e pensei, Agora vai!Aí virei o garfo na azeitona e dei uma garfada no centro geométrico da azeitona. Foi um grande erro! O mesmo erro cometido por Jânio Quadros quando renunciou ao governo do Brasil, e pensou que alguém ia dizer, Fica que você é muito importante, porém ninguém falou nada.
Bom, a garfada acertou em cheio o meio da azeitona e a azeitona acertou em cheio o sujeito que estava na mesa ao lado. Fiquei parado esperando a reação do mesmo que lentamente foi levantando a cabeça até que seus olhos encontraram os meus. Não foi um encontro de anos. Foi um encontro de uma crise causada por uma azeitona. Seus olhos ficaram parados iguais, mas os seus lábios começaram a se mover, pareciam aqueles filmes americanos, onde nos momentos de suspense cada detalhe é enfocado com a câmera com a lente em zoom. Ou seja, os objetos ou movimentos são vistos muito próximos. Senti um clima de animosidade. O homem era gordo e grandalhão. A azeitona caiu mal, foi o meu pensamento naquele instante. Aliás, esta azeitona pelo andar da carruagem caiu muito mal, aliás, novamente prevejo uma indigestão sem ao menos ter comido uma azeitona.
- Ô chê, tu jogou uma azeitona no meu prato.
- Foi mesmo, deve ter sido sem querer.
- Ô chê, tu não tá de brincadeira comigo não, não é?
- Como de brincadeira, amigo você acha que eu faria uma coisa dessas...?
- Olha pra mim quando fala comigo, chê...
- De repente dei uma olhada na camiseta do cidadão e lá estava: 2° Congresso GLS de Porto Alegre-, pensei. O sujeito é gay e eu vou fazer uma palestra sobre comportamento deste tema.
- Companheiro... você pertence a GLS?
- Tu não tá vendo na camiseta?
- Então, eu vou fazer uma palestra sobre comportamento...
- E o que eu tenho com isso?
- Bom, você não pertence à GLS?
- Sim, e daí...
- Bom, em se tratando de comportamento... eu sou psicanalista, e...
- Tá me chamando de maluco?
- Não, não é isso, na verdade é que eu trato de pessoas como você quando tem conflito de identidade.
- Conflito de identidade? Conflito de identidade tem a tua...
- Calma amigo, você está falando com um especialista, você viu, já ficou alterado... você é do tipo agressivo.
- Agressividade?? Você jogou uma azeitona no meu prato e agora diz que vai dar uma palestra na associação (GLS).
A coisa estava piorando, piorando muito, por causa de uma simples azeitona. Fiquei pensando, caramba uma guerra pode começar por causa de uma azeitona, ou talvez um palito de dente, ou talvez...
Acordei no Hospital Nossa Senhora da Aparecida com um olho roxo, o nariz quebrado e uma imensa dor de estômago, talvez por uma indigestão da azeitona."

(Crônicas Cronificadas - A azeitona de Moisés Esagui)

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