quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Crônicas Cronificadas - O cemitério

Arte por André Ferreira
O cemitério


"Todos os dias ele passava aquela mesma hora na frente do cemitério. Ah! a hora, 23:00 horas. Saía do curso preparatório para o concurso do Banco do Brasil, e caminhava até a sua casa. Bom, é melhor eu situar toda esta historia, o ano é 1952, a cidade é Manaus, a temperatura à noite 30 graus, aliás, com esta temperatura à noite nem defunto conseguia ficar na cova, tinha que sair para tomar um arzinho, e ele passando na frente do cemitério. Era um grande cemitério, excelente cemitério, como diria, um vivo, amigo meu.
Para os vivos a visão de um cemitério é mais confortável, muito mais. Experimente morrer, depois de ter vivido em uma casa com sala, dois quartos, com suíte ou não, imensa cozinha etc, etc, e de repente, pois a morte não acontece de outra forma, em um instante você está vivo, porque essa é uma condição fundamental para se morrer, e em outro momento, para ser absolutamente delicado, você nasce na eternidade, e aí percebe que o seu corpo está morando em uma caixa desconfortável e sem móveis, tv, nada. É dura a vida de morto! Por isso, penso que ninguém quer morrer.
Mas voltemos ao nosso personagem que passava todo dia na frente do cemitério do Boulevard Amazonas, seu nome Juvenal. E lá vem o Juvenal, cauteloso, passo a passo, olhando cuidadosamente para os altos muros feitos com grades, à antiga, todas trabalhadas, bonitas, mas fúnebres, na verdade, próprias para filmes de terror. Cada movimento, cada ventinho, ruído, inseto passeando nas luzes tremelicantes foi por minha conta, mas o medo do Juvenal emitia sons e cheiro, isto é verdade.
De repente e não mais que de repente, lá longe, no meio da névoa, uma sombra, uma sombra caminhando. Nada pior, sombras que caminham podem se aproximar mesmo contra a nossa vontade. Isso nos tira o controle da situação, e o controle dos nervos. Bom, Juvenal já estava com medo. A sombra, como toda sombra que anda perto de cemitério, tinha o jeitão de ser um, como diria?, uma assombração. Juvenal pensou, deve ser alguém se aproximando, alguém se aproximando às 23:00 horas na frente do cemitério. Continuou pensando, é comum alguém vivo, assim como eu passar às 23:00 horas na frente do cemitério? Juvenal tentava organizar seus pensamentos, seu corpo tremia, seus pensamentos tremiam, o mundo inteiro tremia. Neste momento uma coruja emitiu um som fantasmagórico, roubando por segundos a cena.  A sombra, arroba, assombração ponto com, ponto br, também parou. Agora o Juvenal estava desesperado. Fantasmas param quando ouvem ruídos emitidos por coruja?
Neste momento faço um parêntesis para dizer. O Juvenal, caro leitor, desavisado da capacidade imaginativa de alguém com medo, fique sabendo, o Juvenal estava com medo, mas tinha um plano B.
A sombra permanecia parada. Seria uma alma penada? Um lobisomem? Um vampiro? Uma vaca? (desculpem me empolguei). É, Juvenal estava confuso, plano B era a solução, largou os cadernos e livros no chão. Ficou ereto como um militar na posição de sentido, arrebitou o bumbum, como a Marylin Monroe, flexionou os joelhos como um esquiador, abriu os braços na posição horizontal, e começou a movimentá-los como se fossem asas, ao mesmo tempo em que flexionava os joelhos fazendo um movimento de abaixa e levanta...


Um grito ecoou no meio do nevoeiro, a sombra emitiu um som tão alto que assustou até os mortos.
A sombra saiu correndo e gritando. Juvenal ficou assustado, no ínicio, depois foi se acalmando, e mesmo ainda cauteloso, continuou o caminho.
Chegou em casa, tomou seu costumeiro banho e foi dormir. No outro dia, ele, que trabalhava como vendedor na loja de tecidos do seu Azize, ouviu o seu Azize falar com a esposa Jezebel, este era o nome dela.
- O nosso funcionário Randolfo não vem trabalhar hoje, o coitado está internado lá no pronto socorro municipal, a mulher dele disse que ele chegou em casa, em estado de choque, não falando coisa com coisa, viu um vampiro lá perto do cemitério mais ou menos às 23:00 horas, e que o sinistro monstro agitava as asas vindo em sua direção, sentiu todo o medo do mundo e desatou a correr, só parando quando chegou em casa.
- Juvenal, você acredita nesta história de vampiro?
Fim."
(Crônicas Cronificadas - O cemitério por Moisés Esagui)

3 comentários:

  1. Expondo o medo ao ridiculo... Boa história :)

    ResponderExcluir
  2. O medo impedindo a lucidez... Bela e irônica crônica.
    Móises, gosto muito dos seus videos gostaria se possível, saber qual a música que dá início a eles. Obrigada.

    ResponderExcluir