sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Crônicas Cronificadas - Vamos tomar um café?


"A mulher alta, magra, loira de cabelos encaracolados, vestido colorido de material sintético com as costas à mostra transpirando sensualidade e segurança. O sapato alto, muito alto, fazia um barulho surdo quando andava. Sentou-se em um dos lugares vazios no saguão do aeroporto.
Eu conversava com Wesley , o cara que sempre que viajo está na porta da sala de embarque. É mineiro bom de papo. Conversamos sobre comida, os ladrões do governo, a cara de paisagem do presidente, a saída atrasada do avião, dos passageiros etc.
A mulher sentou ao lado do assento no qual havia colocado a minha bolsa, portanto eu chegara primeiro. Da porta de entrada do saguão onde me encontrava conversando com o Wesley, observava a inquietação da mesma. Colocou a bolsa no mesmo banco em que a minha estava, fiquei só observando. Mais uma empurrada na minha bolsa e colocou uma sacola. Até aí tudo bem, continuei a conversa com o Wesley que já tem mais de vinte e cinco horas de conversa despreocupada comigo, o que é muito melhor do que uma conversa com pessoas mal humoradas ou ouvir o Lula dizer coisas que nem ele acreditava.
O papo terminou, resolvi me sentar no lugar onde estava colocada a minha bolsa.  Aproximei-me educadamente e me dirigi à mulher, eu não sei se digo senhora, moça, donzela ou mulher. Mulher me parece mais seguro, e disse:
- Por gentileza, você poderia tirar a sua bolsa?
Olhou-me transpirando insatisfação, sua aura e digo sua aura porque ela estava tão densa de raiva que até alguém de olhos fechados poderia ver. Meio raivosa, um pouco hesitante, tirou, mas não sem antes me olhar muito feio. Após alguns minutos pegou sua bagagem e foi sentar em outro lugar, bem do lado de um cara gordo, destes que gosta de fazer churrasco no final de semana com muita picanha e cerveja e que também só tem amigos gordos e que fumam, criando um ambiente absolutamente saudável para todos.
O homem falava ao celular, falava alto, parecia que não tinha mais ninguém no saguão. A mulher, pensei eu, com o novo lugar escolhido havia trocado alguém vegetariano, educado, esbelto, por um tender falante. Foi um momento de grande prazer ver que os maus tratos estavam sendo punidos pelos 90 decibéis da voz do homem gordo. Ri internamente e até pensei em falar: - Quer sentar ao meu lado novamente? Pois é, eu não quero!
Bom, o homem falava alto mesmo, e chegou um momento que como era de se esperar ela não agüentou mais e soltou os cachorros, todos, inclusive dois Dobbermans e uns quarenta cães Fila brasileiros.
O berreiro começou quando ela, educadamente com suas unhas de bruxa cutucou o homem gordo, que em resposta sorriu, pensando, Que bela mulher..,mas não por muito tempo perdurou este delicioso sentimento de estar sendo apalpado, pois atrás vieram palavras cruéis como: - O Sr. não tem educação? Não percebe que aqui é local público?...
O homem gordo passou de um agradável homem enamorado por cutucão, a um gordo lutador de sumô. Aí o negócio ficou preto. Uma amiga minha diria: Ah, vá!. Eu digo: Ficou preto?
Os dois se levantaram, a mulher parecia um galinho de briga; o homem, um lutador de sumô, e eu me senti neste momento como o juiz.
-  O senhor é um ignorante, grosso...
- A senhora é mal educada e invasiva...
- Eu vou chamar a segurança.
- E o que a senhora vai dizer? Que espetou essas unhas de bruxa em mim?...
- Unhas de bruxa? ... seu, seu mal educado...
Quem estava no saguão fingia que não estava ouvindo ou vendo. Dois rapazes vestidos com bermudas de quem pratica skate riam, outros olhavam para o teto, outros colocavam o livro ou a revista sobre o rosto e assim cada um foi assumindo um lugar nesta interação grupal.
De repente, a mulher começa a chorar e se senta resmungando que essas coisas só aconteciam com ela e que não sabia o que fazer para que tudo fosse diferente. O homem gordo sentou-se ao seu lado:
- Calma moça, tudo pode se resolver...
- Não, eu sempre acabo me irritando com as pessoas, não agüento mais...
- Calma, o que você acha de tomar um chocolate quente ou um café? Ainda temos uns vinte minutos...
- Chocolate? Eu gosto de chocolate frio...
- Fechado, eu pago um chocolate frio. O que você acha? Aí nós nos acalmamos e ninguém precisa ficar brigando..., vamos...
- Vamos...
Eu me senti frustrado. Uma briga que prometia tanto, simplesmente acaba em chocolate... Fiquei parado olhando os dois saírem quase de mãos dadas para tomar o chocolate da paz, que mais parecia um chocolate de casamento...
Daí a pouco voltavam, ele com as mãos nos ombros dela e os dois rindo como se já se conhecessem há dois mil anos...
Senhores passageiros, informamos que em minutos iniciaremos o embarque. Mulheres, pessoas com crianças e idosos à frente.

Os dois ficaram por último... nem se importavam em entrar na fila. O gordo carregava a bagagem, e os olhares... ah os olhares..."

(Crônicas Cronificadas - Vamos tomar um café? por Moisés Esagui)

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