quinta-feira, 28 de maio de 2015

Crônicas Cronificadas - O cheiro

Ilustração por Raquel Esagui
O cheiro
"Tudo começou com o nariz da minha esposa. Não começou em outro lugar, nem na imaginação, nem em pensamentos racionais ou filosóficos. Começou em um determinado instante dentro do aeroporto, precisamente na fila de check-in, ao lado de uma coluna de concreto e uma fila tão grande quanto à fila dos aviões atrasados para vôo que o ministro da aeronáutica diz não existir, e que aquela outra diz senta e relaxa, em um momento de absoluta sabedoria. O ministro, assim como todos os nossos governantes, não mora no Brasil, não sei onde mora... mas voltemos ao aeroporto de Guarulhos.
Eu, olhando aquela imensa fila, comecei a fazer o que me é de costume, contar o número de pessoas da mesma. Neste momento, minha esposa disse: "Você está sentindo esse cheiro?" Notem que ela disse esse cheiro e não um cheiro. Imediatamente senti o perigo ameaçador que se aproximava, implacável e estremecedor. São coisas absolutamente diferentes "esse cheiroe um cheiro. Podem parecer para o leitor incauto e despreparado algumas palavras comuns com uma retórica caseira, não se engane, não é!
Meus pressentimentos se consolidaram quando ela repetiu novamente a mesma frase, porém com o rosto alterado pela preocupação inescondível. Sou um estudioso do comportamento da minha esposa.
Olhei para ela e disse: Que cheiro!
- Foi o que eu disse!
- Quero dizer, "que cheiro?
- Você não está sentindo?
- Qual? Eu estou sentindo vários... Sinto cheiro de sua caban nova de couro, do seu perfume, do cara que acabou de passar com o desodorante vencido na primeira guerra mundial, do cachorro que está junto do pilar... - Do cachorro?!!!
-
Brincadeirinha... É de pelúcia e está com aquela garotinha.
- Eu estou falando sério, você não leva nada a sério!
Senti neste momento que era melhor enfrentar a minha incapacidade para sentir cheiros.
Pensei rápido, muito rápido, e em apenas...
- Olha querida, você pode definir melhor qual é o cheiro do qual está falando?
- Claro, esse cheiro, esse forte, parece, parece...
Neste momento lembrei daquela propaganda de um fabricante de veículos automotivos em que um casal está passeando de carro quando o marido ou a esposa faz esta pergunta: "que cheiro é este?", e atrás a lady Murphy aparece com aquela cara bizarra.
- Parece... parece... carne queimada.. borracha queimada, talvez naftalina..

CABUM!

Naftalina! Fiquei pasmo, pois caso o respeitado leitor não saiba, o odor de naftalina está a centenas de quilômetros de distância do odor de carne queimada. Mas nada impede que nós, seres humanos, confundamos. Com certeza, uma barata não!

O número de possibilidades de odores estava aumentando geometricamente, então era melhor utilizar o elogio fatalou ef, nome técnico criado especialmente para estas situações de máxima dificuldade.
- Querida, me ouça, por favor. Não importa o cheiro que esteja por perto ser bom ou mal, quando estou perto de você o aroma é sempre agradável. Por isso talvez eu não dê importância para mais nada. 
Ela me olhou, sorriu e disse: 
- Você está falando sério?
- Nunca falei tão sério desde a última vez que falei sério.
Ela me olhou sorridente e disse: - Depois vamos tomar um chocolate quente?
Mas uma vez o elogio fatal, fruto da mais alta tecnologia desenvolvida através de uns poucos momentos de compreensão da vaidade feminina, funcionou.

(Crônicas Cronificadas - O cheiro - Por Moisés Esagui)

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