quinta-feira, 23 de julho de 2015

Crônicas Cronificadas - O Bêbado e o Índio


"Voltava de Rio Branco, no Acre. Ia para Manaus. A viagem era turbulenta. O avião estava lotado de garimpeiros. Sentado à minha direita um índio que parecia não tomar banho desde a época medieval, há umas três ou quatro reencarnações. O cheiro era insuportável. Todos reclamavam. Ele não parava de falar, e falava alto. O hálito era neandertal e, pior, tinha a mania de tocar nas pessoas quando falava.
Do lado esquerdo a situação não era melhor. Um conhecido com malária e bêbado.
De um lado, um falastrão e de outro um delirante. Não havia poltrona vazia para eu me safar desta sina.
Comecei a fazer ouvidos de mercador. O conhecido do lado esquerdo era piloto e em determinado momento falou:
-Estamos entrando na radial trezentos e setenta, se a minha memória não falha e o piloto está doente. Pronto, foi o suficiente, o índio calou a boca e ficou pálido. Eu fiquei pálido e quase calei a boca, mas reagi: - Como assim o piloto está doente? Isto é óbvio eu estou com malária e meio bêbado e, é claro, muito sensível. Então... o piloto está doente e provavelmente será substituído quando pararmos em Porto Velho, que é a nossa primeira escala.
- Você acha que eu vou acreditar nisso?
- Olha, em um minuto, mais ou  menos, só pelo jeito desta trepidadinha que deu agora ele vai sair desta radial novamente, pois estamos de frente de uma área de turbulência severa.
- Como você pode dizer isso?
- Pelo tipo de trepidadinha. To meio bêbado, com malária, mas sou piloto.
Foi batata! O avião fez uma manobra para a direita após o comandante falar.

- Senhores passageiros, vamos enfrentar uma área de turbulência, mantenham seus cintos afivelados. Obrigado.
- Viu?
Pensei comigo, Caramba, esse cara tá me deixando nervoso
- Ah, ele tá mal mesmo, aproveitou mal o empuxo na manobra colocando as turbinas em esforço e causando vibração. Vou rezar até Porto Velho, não quero nem morrer de malária quanto mais de doença dos outros.

O índio estava com os olhos vidrados, a boca parecia ter tido uma contração esfincteriana traumática acompanhada de um olhar catatônico ebefrenico. A situação estava complicada, pois o meu conhecido já havia pedido pelo menos uns quatro copos de água, e como era eu que pedia pra ele...
- O Sr. Está com malária? disse a comissária de bordo se dirigindo a mim.
- Não, claro que não.
- É que o senhor está bebendo muita água.
- Desculpe, é que eu tomo alguns medicamentos que me deixam a boca e as narinas ressecadas.
- Ah bom, então se precisar é só chamar.
- Sim, claro. Obrigado.

O avião parou em Porto Velho, foi anunciada a troca dos comandantes. O avião decolou.

- Este piloto é bom, bom mesmo. Já não preciso morrer de medo e nem de malária. Saiu com uma conversão à esquerda sem esforço nas turbinas. Velocidade, tempo e sensibilidade. Esse é o cara!

Apesar da retórica verborrágica, me senti mais tranqüilo.
O índio dormiu.
Eu dormi.

O meu conhecido chegou vivo em Manaus, e está vivo até hoje."

(Crônicas Cronificadas - O Bêbado e o Índio de Moisés Esagui)

Um comentário:

  1. Gostei muito. Afinal depois de tanta complicação o doente de malária tinha mesmo razão. Sabia o que dizia.

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